As Relações, Intrigas, Estresses, Blasfêmias e Preces de KTT ZOO

Entre para o universo de KTT ZOO e suas intimidades com o boombap amarrando novamente o rap nacional.

Além dos beats trazerem essa sensação de intimidade por serem mais pesados (boombap, né?), as letras do álbum se encarregam de legitimar esse conceito. É como se entrássemos na mente do personagem que está lidando com as adversidades humanas, refletindo sobre seus sonhos, almejando sua estabilidade, entendendo em que lugar estão seus inimigos e enxergando o rap como um caminho — seja para realizar esses desejos, seja para apenas se expressar e aliviar-se do cotidiano.

Nas primeiras faixas, Sain deixa bem clara a ideia de que o rap é visto como um instrumento de atingir seus objetivos, como o sustento de sua filha, de modo que a música seria sua forma de ganhar dinheiro e meio de ascensão. Isso fica explícito no sample utilizado no início de Demanda, segundo som do disco.

Em faixas como Relíquia do Boom Bap, com Nochica, Lucro, com Felp 22 e Ebi no Tempurá, com Febem, Sain canta sobre temas que já possuem uma aderência forte no meio, como a imposição de saber seu lugar e o que merece, o envolvimento com o crime e o quanto o luxo é capaz de prender alguém nessa vida, e a ascensão social de frequentar lugares e contextos que antes não parecia palpável.

Apesar de serem assuntos já conhecidos no rap nacional, Sain entrega isso de uma maneira original para o momento em que a cena está vivendo. Os beats mais profundos e os samples utilizados nos jogam diretamente para dentro de um filme dos anos 70, com aquela atmosfera densa que te enche de suspense, deixando em alerta, mas ao mesmo tempo gerando intimidade o suficiente para que isso não assuste. Muito pelo contrário.

Conseguimos ter mais noção ainda desse envolvimento e intimidade em Skit Visão. Nesta, ouvimos um sample falando sobre como o rap é importante para traduzir e anestesiar a crueldade do mundo. Skit Visão ser a sequência de Lucro casa perfeitamente, pois é quase uma extensão do beat da música anterior, conectando as duas de maneira exemplar, além da relação entre não conseguir sair do crime e os conselhos sobre a crueldade da realidade, quase como se dissesse que, apesar de não ser belo, o mundo é isso também — que é justamente sobre o que o sample diz.

Nas 4 últimas faixas do álbum esse envolvimento e intimidade ficam ainda mais fortes. Iori Incorporado é a definição de yin yang, o mal que habita no bem e o bem que habita no mal, e como isso deve ser equilibrado para conseguir lidar com o dia a dia e suas adversidades.

Noturno KGL fala sobre vícios e sobre como a noite instiga os piores impulsos, mas ainda embala com as possibilidades, beleza e mistério que a madrugada sugere. Em termos de produção, nessa faixa percebemos o sample se repetindo no final do refrão, como se o DJ apertasse a controladora diversas vezes e o distorcesse. Esse recurso é utilizado em outras faixas também, como Iori Incorporado, deixando escancarada a influência do boombap dos anos 90 nesse projeto produzido por Stephan Peixoto.

Ainda seguindo pela densidade, Ignorante, com Lord Apex, retrata um personagem em estado de arrogância pronto para a guerra. Mais uma mágica do produtor, ao final do verso de Apex é possível ouvir um tiroteio intenso em contraste com um choro de recém-nascido, trazendo a dicotomia entre a vida e a morte de maneira fria e pesada.

Momentos, última faixa do disco, é como se fosse uma realização de tranquilidade de alcançar o patamar onde daqui para frente conseguiremos trabalhar da forma que gostaríamos. Ou seja, precisamos percorrer um caminho intenso para chegar até o patamar onde começaremos a trilhar o trajeto que almejamos. Com Marcelo D2 e Douglas Lemos, nessa faixa entendemos que não é como se chegássemos ao final, mas sim no começo da história

Representando um dos berços culturais do Rio de Janeiro, o Catete, Sain trouxe um álbum curto, que contempla o imediatismo do século em que vivemos, mas de maneira tão original que provoca o estado atual da cena. Intimista, instrumental e reflexivo, Sain pede sua atenção durante aquela média de 2 minutos e meio que cada música contém, e a cada ouvida você absorve algo novo.

Cada história retratada no disco, cada elemento que compõe a capa, mostra a pluralidade do que é a mente, seu lado luz e seu lado sombra, e como tudo isso se relaciona com a cultura nacional. Sain conseguiu jogar o boombap de volta da maneira mais contemporânea possível, honrando quem veio antes e consagrando seu legado, para que seja marcado no após.

Texto por: Natalia Ferreira